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A Febre

Escrito por Moderador em 14.Mar.08 – 10:03

A FEBRE é a parte final de um Projeto maior que só foi possível graças ao Prêmio estimulo Myriam Muniz de Fomento ao Teatro, edição de 2006. O Projeto: ” De feira de muares a Revolução Industrial ” é acima de tudo um resgate da história de Sorocaba partindo-se de um momento muito particular - o episódio da Febre Amarela, ocorrido em 1897 á 1900. Sendo que o ano de 1897 marca também o final de um ciclo econômico iniciado em 1733, que eram as Feiras de Muares. Para ser ter uma medida mais precisa da importância dessas feiras anuais para Sorocaba e conseqüentemente para o país todo, basta dizer que todo o transporte interno de mercadorias de uma região á outra era feito através de muares, que transportavam desde o ouro que era levado para o litoral e dali para Portugal, até alimentos, tecidos para todas as regiões do país. Tudo enfim, dependia dos muares. O muar era o carro daquela época, logo, sem ele a economia não girava e Sorocaba era o centro que comercializava os muares para todo o país. Durante os meses de abril, maio e junho a população da cidade se multiplicava. O Tropeirismo e a Comercialização de Muares foi por muito tempo a base de nossa economia. E este denominador só começou a ser alterado com o surgimento da estrada de ferro que foi pouco a pouco estendendo sua malha por todas as regiões do território nacional, tornando o transporte de cargas mais rápido, mais eficiente e mais barato. Mas o tiro de misericórdia desse processo viria a ocorrer em plena Feira de Muares de 1897 e também a última ocorrida aqui. - A Febre Amarela. A febre surgiu em Sorocaba em 1897, até bastante tarde em relação á cidades vizinhas que já tinham sofrido com a epidemia em anos anteriores. Principalmente considerando-se a grande afluência de pessoas que aqui chegavam anualmente. A peste assustou e matou sobretudo estrangeiros e europeus residentes na cidade- Sorocaba áquela época tinha uma colônia alemã expressiva. Permaneceu de forma endêmica até o final de 1899 quando recrudesceu sua investida contra a cidade.

A virada para o século XX foi sob o signo do medo e da incerteza. Omolu, o senhor das epidemias, nosso arquétipo da morte regia os destinos. O Projeto portanto aborda esse período tão delicado e dolorido de transição econômica gerado pelo fim das feiras e início da industrialização, processo este que já vinha se implantando nos últimos anos do século XIX. Dentro desse período que Sorocaba esteve sob o jugo da Febre Amarela é que se desenvolve a peça, abordando ainda algumas especificidades deste local chamado pelos indígenas de Terra Rasgada. Sorocaba foi a primeira cidade brasileira a erradicar a Febre Amarela, antes mesmo do Rio de Janeiro, então a Capital Federal da República. Aqui desembarcou Emilio Ribas e sua equipe de médicos e sanitaristas que provaram para espanto de todos, que a Febre Amarela não era causada por um vírus e sim, transmitida por um mosquito, o AEDES EGYPTIS ,o mesmo que ainda hoje nos revisita propagando a dengue. Calcado no estudo e pesquisa sobre a história de Sorocaba na virada para o século XX é que foi criada e desenvolvida a dramaturgia do espetáculo ” A FEBRE “, que tem um pouco de Comédia de Costumes, sobretudo quando aborda o dia a dia de uma cidade sem esgoto e água encanada. Tragédia, melodrama, tudo traduzido para o universo do Teatro de Rua. E assim, como artistas estamos buscando explorar outros espaços para o fazer teatral que é o TEATRO DE RUA.

O texto do espetáculo foi fruto de profunda pesquisa e mergulho na história de Sorocaba,. Trata-se de uma montagem bastante interativa, onde o público será solicitado todo o tempo a participar como ator ou figurante de sua própria história passada. Assim, esperamos não apenas a contemplação passiva de um espetáculo mas a vivência objetiva da história representada. Uma peça de teatro não é uma peça de museu, é uma obra viva, pulsante e como tal será realizada. O público, ainda dentro deste princípio, acompanhará os atores pelos diversos locais da ação e poderá se sentir um personagem da história e não um expectador distante. Assim, a multidão ensandecida que quer linchar o acusado de matar a menina Julieta será vivenciada não só pelos atores mas também por todos os presentes que terão durante toda a encenação a vivência física, corporal do fato histórico aliada á compreensão racional do momento social e econômico abordado. A idéia proposta já na concepção do texto é: Participe com seus sentidos todos, entrando nessa aventura como personagem e não apenas expectador.

A Febre aborda os principais fatos ocorridos na cidade entre 1897 á 1900. São histórias pitorescas, trágicas, lúdicas, como a cena FANTASMAS E ASSOMBRAÇÕES DA SOROCABA VELHA, onde se pode ver que uma cidade ainda sem luz elétrica e tendo algumas parcas ruas iluminadas a lampião é bastante suscetível a ver formas estranhas na escuridão da noite que muitas vezes era na verdade uma vaca branca solta no pasto ou então engraçadinhos e oportunistas que se divertiam com a boa fé alheia. Assim como há também histórias que o imaginário popular imortalizou como a história de Joana, a jovem que em vida nunca pode ir a um baile e agora morta… Bem, essa é apenas uma das muitas histórias recolhidas e que fazem parte do espetáculo. O espetáculo é uma grande produção que só foi viável graças ao patrocínio da Petrobrás, através do Projeto Myriam Muniz de fomento ao Teatro de 2006, pois temos 43 atores em cena, além de 3 músicos da orquestra da Fundec. Na preparação os atores tiveram oficinas de prosódia caipira, com o médico e historiador José Carlos de Campos Sobrinho, oficinas de circo com Bruno César além de outras oficinas especificas. Fazem parte do elenco os seguintes atores : Bruno César, Marcelo Damasceno, Victor Placca, Melany Kern, Vitor Gabriel, Tato Ribeiro, Fabrício de Castro, Mayara de Oliveira, Rafael Ramos, Ivone Martins , Richard dos Santos, Anderson Gonçalves, Robson Catalunha, Rosaura Mello, Matilde Santos, Rodrigo Cintra, Merlin Kern, Mario Pérsico, Túlio Candiotto, Mariana Filosi, Rodrigo Scarpelli, Ibraim Ramos, Camila Ribeiro, Flavia Libaneo, Cauana Marin, Évelyn Bandeira, Carol Matias, Marina Baldochi, Cauê Hangstman, Fernando Andrade, Leonardo Vieira, Tatiana Bavia, Ruzena Stracke, Elisa Shicana Gomes, Sabino Notário, Graziele Barros, Juliana Chaves, André Felipe, Bruno Tagliaferro, Pedro Henrique Mello, Geovana Gurres, Elizeo Fernandes e Ruth Fortes.

O Projeto depois de agraciado pela Funarte e Petrobrás contou com outro apoio inestimável á sua realização que foi a incorporação a outro Projeto este local, que é o de CIDADE EDUCADORA, funcionando as apresentações da Febre e mesmo as oficinas realizadas na escola Matheus Maylasky como um piloto inicial desse projeto que prevê a ocupação dos espaços públicos para o desenvolvimento de atividades culturais, lazer e estudo.

Este conceito surgiu na Espanha e estará sendo desenvolvido em nossa cidade a partir de 2007.


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